domingo, 5 de setembro de 2010
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa: sempre atual
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Lenine
Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem.
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa.
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto
e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou.
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
A CIGARRA E A FORMIGA
Tendo a Cigarra cantado
durante todo o verão,
Viu-se ao chegar o inverno
sem nenhuma provisão.
Foi à casa da Formiga,
Sua vizinha, e então
Lhe disse: – Querida amiga,
Podia emprestar-me um grão
Que seja, de arroz,
De farinha ou de feijão?
Estou morrendo de fome.
- Faz tempo então que não come?
Lhe perguntou a Formiga,
avara de profissão.
- Faz.
- E o que fez a senhora,
durante todo o verão?
- Eu cantei – disse a Cigarra.
- Cantaste? Pois dança agora!
La Fontaine. Fábulas. Tradução de Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: Revan, 1997. P. 10.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)
São Francisco
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.
Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.
MORAES, Vinícius de. A arca de Noé: poemas infantis. São Paulo: Cia. Das Letras, 1991. P. 14.
O pato
Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o Pato
Para ver o que é que há.
O Pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela.
MORAES, Vinícius de. A arca de Noé: poemas infantis. São Paulo: Cia. Das Letras, 1991.
O elefantinho
Onde vais, elefantinho
Correndo pelo caminho
Assim tão desconsolado?
Andas perdido, bichinho
Espetaste o pé no espinho
Que sentes, pobre coitado?
— Estou com um medo danado
Encontrei um passarinho!
MORAES, Vinícius de. A arca de Noé: poemas infantis. São Paulo: Cia. Das Letras, 1991. P. 36.
O que é do homem o bicho não come
Lá vem um bicho esquisito,
Lobo em pele de cordeiro?
Ovelha negra dos bichos?
Os outros bichos espreitam.
Assustados, correm e somem,
Pois é sempre imprevisível
Esse tal de Bicho-Homem
OLIVEIRA, Marcelo R. L. Nós e os bichos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2001. P. 28.
Basta!
Agora chega!
Chega de obedecer
e de ficar calado.
Chega de ter que fazer
tudo o que não quero
e acho errado!
Agora chega!
Chega de comer pepino
e de engolir ovo quente,
chega de dormir cedo
e acordar mais cedo ainda,
chega de visitar a avó,
a tia, a prima, o padrinho...
Chega de prestar contas
do banho tomado,
da roupa escolhida,
do uniforme da escola,
da nota da prova,
de cada segundo,
de cada respiro!
Chega, chega... e chega!
Liberdade ainda que tarde!
Independência ou morte!
Manheêêêê!
Onde está a minha roupa de goleiro?
Paiêêêêê!
Quero o dinheiro da minha mesada!
Carlos Queiroz Telles. Sementes de sal. São Paulo: Moderna, 2003. P. 74-75.