terça-feira, 5 de agosto de 2008

Você consegue encontrar os adjetivos adequados para cada locução adjetiva abaixo? Bom trabalho!
EXERCÍCIOS

Transforme as locuções adjetivas em adjetivos.

Região do abdômen ______________________________________
Planta da água _________________________________________
Teor de álcool __________________________________________
Pressão da artéria _______________________________________
Atividade do cérebro _____________________________________
Azul do céu ____________________________________________
Água de chuva _________________________________________
Área da cidade _________________________________________
Problema do coração _____________________________________
Ração do dia ___________________________________________
Calendário da escola ______________________________________
Era do gelo ____________________________________________
Faixa de idade __________________________________________
Festa de junho __________________________________________
Brisa do mar ___________________________________________
Região das nádegas ______________________________________
Coroa de rei ___________________________________________
Água de rio ____________________________________________
Alimento sem sal ________________________________________
Frutinhas da selva _______________________________________
Animais da selva ________________________________________
Cordão do umbigo ______________________________________
Estudo da Bíblia ________________________________________
Espetáculo de cinema ___________________________________
Debate da democracia __________________________________
Intervenção de Deus ____________________________________
Movimento de estudantes ________________________________
Ensaio de fotografia _____________________________________
Sarau de poesia ________________________________________
Faixa de presidente _____________________________________
Sangue das veias _______________________________________
Fratura do osso _________________________________________
Olhos de águia _________________________________________
Rosto de anjo ___________________________________________
Relatório do ano _________________________________________
Problemas de audição ____________________________________
Adulto sem barba ________________________________________
Higiene da boca _________________________________________
Sino de bronze _________________________________________
Creme de cabelo ________________________________________
Indivíduo sem cabelo _____________________________________
Carne de cabra _________________________________________
Trabalhador do campo ____________________________________
Vida de cão ___________________________________________
Corrida de cavalo _______________________________________
Pêlo dos cílios _________________________________________
Atração de circo ________________________________________
Caixa do crânio _________________________________________
Comportamento de criança ________________________________
Impressão do dedo ______________________________________
Fio para dente _________________________________________
Problema de estômago ___________________________________
Creme para face ________________________________________
Criança com febre _______________________________________
Jeito de fera ___________________________________________
Linha de ferro _________________________________________
Amor de filho __________________________________________
Paixão sem freio ________________________________________
Batida de frente ________________________________________
Som da garganta ________________________________________
Pêlo de gato ___________________________________________
Inflamação da gengiva ____________________________________
Raça dos homens ________________________________________
Barulho de inferno _______________________________________
Amor de irmão __________________________________________
Aparência de jovem _____________________________________
Movimento do lábio _______________________________________
Batida de lado ___________________________________________
Juba de leão ____________________________________________
Farinha de leite __________________________________________
Brilho da lua ____________________________________________
Amor de mãe ___________________________________________
Café da manhã __________________________________________
Trabalho com a mão _____________________________________
Salário do mês _________________________________________
Jogada de mestre _______________________________________
Crise de moeda _________________________________________
Comportamento de monstro _______________________________
Golpe de morte _________________________________________
Distensão de músculo ____________________________________
Desobstruidor de nariz ____________________________________
Festa de Natal __________________________________________
Período da noite _________________________________________
Globo do olho ___________________________________________
Problema de osso ________________________________________
Corrente de ouro ________________________________________
Problema de ouvido ______________________________________
Amor de pai ___________________________________________
Carne de porco _________________________________________
Canção do povo _________________________________________
Infecção de pulmão ______________________________________
Crise de rim ___________________________________________
Inscrição das rochas ______________________________________
Espetáculo de teatro _____________________________________
Caixa do tórax __________________________________________
Força de touro __________________________________________
Pára-choque de trás ______________________________________
Encontro de bispo ________________________________________
Olhos de vidro __________________________________________
Problema de voz _________________________________________


Obs.: Convém observar que nem sempre a locução adjetiva possui um adjetivo correspondente.
Observe:

janela de cima
menino de rua
artigo de primeira
resposta sem-pés-nem-cabeça

Texto ma-ra-vi-lho-so! Uma verdadeira lição de vida. Você vai adorar, eu sei.





O coração roubado


Eu cursava o último ano do primário e como já estava com o diplominha garantido, meu pai me deu um presente muito cobiçado: O coração, famoso livro do escritor italiano Edmondo de Amicis, best-seller mundial do gênero infanto-juvenil. Na página de abertura lá estava a dedicatória do velho, com sua inconfundível letra esparramada. Como todos os garotos da época, apaixonei-me por aquela obra-prima e tanto que a levava ao grupo escolar da Barra Funda para reler trechos no recreio.


Justamente no último dia de aula, o das despedidas, depois da festinha de formatura, voltei para a classe a fim de reunir meus cadernos e objetos escolares, antes do adeus. Mas onde estava O coração? Onde? Desaparecera. Tremendo choque. Algum colega na certa o furtara. Não teria coragem de aparecer em casa sem ele. Ia informar à diretoria quando, passando pelas carteiras, vi a lombada do livro, bem escondido sob uma pasta escolar. Mas... era lá que se sentava o Plínio, não era? Plínio, o primeiro da classe em aplicação e comportamento, o exemplo para todos nós. Inclusive o mais limpinho, o mais bem penteadinho, o mais tudo. Confesso, hesitei. Desmascarar um ídolo? Podia ser até que não acreditassem em mim. Muitos invejavam o Plínio. Peguei o exemplar e o guardei em minha pasta. Caladão. Sem revelar a ninguém o acontecido. Lembro do abraço que Plínio me deu à saída. Parecia estar segurando as lágrimas. Balbuciou algumas
palavras emocionadas. Mal pude retribuir, meus braços se recusavam a apertar o cínico.


Chegando em casa minha mãe estranhou que eu não estivesse muito feliz. Já preocupado com o ginásio? Não, eu amargava minha primeira decepção. Afinal, Plínio era um colega que devíamos imitar pela vida afora, como costumava dizer a professora. Seria mais difícil sobreviver sem o seu exemplo. Por outro lado, considerava se não errara em não delatá-lo. “Vocês estão todos enganados, e a senhora também, sobre o caráter do Plínio. Ele roubou meu livro. E depois ainda foi me abraçar...”


Curioso, a decepção prolongou-se ao livro de Amicis, verdadeira vitrina de qualidades morais dos alunos de uma classe de escola primária. A história de um ano letivo coroado de belos gestos. Quem sabe o autor não conhecesse a fundo seus próprios personagens. Um ingênuo como a nossa professora. Esqueci-o.


Passados muitos anos reconheci o retrato de Plínio num jornal. Advogado, fazia rápida carreira na Justiça. Recebia cumprimentos. Brrr. Magistrado de futuro o tal que furtara meu presente de fim de ano! Que toldara muito cedo minha crença na humanidade! Decidi falar a verdade. Caso alguém se referisse a ele, o que passou a acontecer, eu garantia que se tratava de um ladrão. Se roubava já no curso primário, imaginem agora... Sempre que o rumo de uma conversa levava às grandes decepções, aos enganos de falsas amizades, eu contava, a quem quisesse ouvir, o episódio do embusteiro do Grupo Escolar Conselheiro Antônio Prado, em breve desembargador ou secretário da Justiça.


— Não piche assim o homem — advertiu-me minha mulher.


— Por que não? É um ladrão!


— Mas quando pegou seu livro era criança.

— O menino é o pai do homem — rebatia, vigorosamente.


Plínio fixara-se como um marco para mim. Toda vez que o procedimento de alguém me surpreendia, a face oculta de uma pessoa era revelada, lembrava-me irremediavelmente dele. Limpinho. Penteadinho. E com a mão de gato se apoderando de meu livro.


Certa vez tomaram a sua defesa:


— Plínio, um ladrão? Calúnia! Retire-se da minha presença!


Quando o desembargador Plínio já estava aposentado, mudei-me para meu endereço atual. Durante a mudança alguns livros despencaram de uma estante improvisada. Um deles O coração, de Amicis. Saudades. Havia quantos anos não o abria? Quarenta ou mais? Lembrei da dedicatória de meu falecido pai. Ele tinha boa letra. Procurei-a na página de rosto. Não a encontrei. Teria a tinta se apagado? Na página seguinte havia uma dedicatória. Mas não reconheci a caligrafia paterna.


“Ao meu querido filho Plínio, com todo amor e carinho de seu pai.”
Marcos Rey. O coração roubado e outras crônicas. Col. Para gostar de ler. Ed. Ática.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O adjetivo


Você já pensou no valor que o adjetivo tem? Trata-se de uma classe de palavras muito útil quando se quer descrever algum ser, lugar ou mesmo emoções dos seres...

O adjetivo é a palavra que caracteriza o substantivo (ou o pronome), atribuindo-lhe qualidade, estado ou modo de ser. Ele pode variar em gênero, número e grau, concordando sempre com o substantivo ou pronome ao qual se refere.

gênero: A
mulher ficou encantada com o filme.
Ele ficou encantado com o filme.

número: O ator principal era charmoso e corajoso.
Os atores principais eram charmosos e corajosos.

grau: Ela andava muito assustada ultimamente.

Você notou que ocorrem pequenas alterações nos adjetivos? São justamente as desinências (que você já conhece) que mudam para que os adjetivos se ajustem ao gênero e ao número dos substantivos aos quais se referem.

Substantivo ou adjetivo?

Para sabermos se uma palavra está sendo usada como substantivo ou adjetivo, devemos analisar a frase em que ela se encontra. Observe, por exemplo, o uso da palavra jovem nestas frases:

Um jovem professor entrou na sala. Um jovem entrou na sala.

Na primeira frase, a palavra jovem refere-se ao substantivo professor, atribuindo-lhe uma característica. É, portanto, um adjetivo.
Na segunda frase, a palavra jovem nomeia um ser. Logo, é um substantivo.

Posição dos adjetivos

Às vezes a posição do adjetivo na frase altera o seu significado:

Luís é um velho amigo, que conheço desde a infância.
Luís é um amigo velho, com muita saúde e disposição.

Forma dos adjetivos

Os adjetivos podem ser simples ou compostos.

► Os adjetivos simples são formados por um só elemento.
Exemplos: Bandeira verde. Paletó azul.

► Os adjetivos compostos são formados por mais de um elemento.
Exemplos: Bandeira verde-amarela. Paletó azul-marinho.

Adjetivo pátrio ou gentílico

O adjetivo pátrio, ou adjetivo gentílico, indica nacionalidade, lugar de origem ou procedência.

Exemplos: mulher portuguesa – vinho chileno – cidade européia – música africana

Os adjetivos pátrios podem apresentar forma simples, como nos exemplos anteriores, ou forma composta, como nesses casos:

Acordo luso-brasileiro (Acordo entre Portugal e o Brasil)
Festa ítalo-brasileira (Festa italiana e brasileira)
Luta greco-romana. (Relativo à Grécia e a Roma)

Locução adjetiva

Dia de chuva = Dia chuvoso Dia de sol = Dia ensolarado

Algumas expressões, geralmente formadas de preposição + substantivo, podem modificar um substantivo, exercendo assim a função de adjetivo. Essas expressões são chamadas de locuções adjetivas.

Nos exemplos acima, as expressões de chuva e de sol, que modificam o substantivo dia, são locuções adjetivas. Observe que essas locuções foram transformadas em adjetivos simples.

Veja outros exemplos:

Noite de tempestade = Noite tempestuosa
Festival de estudantes = Festival estudantil
Amor sem fim = Amor infinito

Obs.: Nem sempre as locuções adjetivas podem ser transformadas em adjetivos. Nestes casos, por exemplo, essa transformação é impossível:

Loja de brinquedos carro de corrida lenço de papel


Gênero do adjetivo

Quanto ao gênero, o adjetivo pode ser biforme e uniforme.

O adjetivo biforme apresenta uma forma para o masculino e outra para o feminino.
Exemplos: aluno atento / aluna atenta
carro bonito / casa bonita
dia claro / noite clara

O adjetivo uniforme apresenta uma só forma para o masculino e o feminino.
Exemplos: homem cruel / mulher cruel
homem gentil / mulher gentil
exercício fácil / resposta fácil


Formação do feminino dos adjetivos

A formação do feminino dos adjetivos simples segue a mesmas regras da formação do feminino dos substantivos.
No caso dos adjetivos compostos, só o último elemento varia no feminino.

Exemplos: acordo luso-brasileiro → festa luso-brasileira
lenço amarelo-claro → camisa amarelo-clara

Exceção. O adjetivo surdo-mudo apresenta variação nos dois elementos: menino surdo-mudo, menina surda-muda

Plural dos adjetivos simples

Para concordar com o substantivo a que se refere, o adjetivo simples flexiona-se em número (singular / plural) conforme as regras aplicadas ao substantivo.

Observe estes exemplos:
cidade bonita → cidades bonitas
trem veloz → trens velozes
pessoa gentil → pessoas gentis
blusa azul → blusas azuis

domingo, 3 de agosto de 2008

E se o seu dentista ou sua dentista de repente resolvesse usar um nariz postiço e não quisesse mais tirá-lo? O que você faria? Divirta-se!












O Nariz


Era um dentista respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes, mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sombrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa do almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.

- O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.

- Isso o quê?

- Esse nariz.

- Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.

- Logo você, papai...

Depois do almoço, ele foi recostar-se no sofá da sala, como fazia todos os dias. A mulher impacientou-se.

- Tire esse negócio.

- Por quê?

- Brincadeira tem hora.

- Mas isto não é brincadeira.

Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou.

- Aonde é que você vai?

- Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.

- Mas com esse nariz?

- Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova você não diria nada. Só porque é um nariz...

- Pense nos vizinhos. Pense nos cliente.

Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor...”) fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.

- Ele enlouqueceu?

- Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi ele assim.

Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.

- Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.

- Vou. Aliás, não vou mais tirar esse nariz.

- Mas, por quê?

- Porque não!

Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.

- Papai...

- Sim, minha filha.

- Podemos conversar?

- Claro que podemos.

- É sobre esse nariz...

- O meu nariz outra vez? Mas vocês só pensam nisso?

- Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?

- O nariz é meu e vou continuar a usar.

- Mas, por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.

- Não tem porque não quer...

- Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz postiço?

- Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença.

- Se não faz nenhuma diferença, então por que usar?

- Se não faz diferença, porque não usar?

- Mas, mas...

- Minha filha...

- Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!

A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.

- Você vai concordar – disse o psiquiatra, depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho...

- Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele.

– Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento de meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar, Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como era antes. Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?

- É... – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão...

O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.



Luis Fernando Veríssimo

Esse texto é dez (sfot poc) Não entendeu (sfotoim poc) Então que tal ler (sfotoim poc)

Sfot Poc

Chamava-se Odacir e desde pequeno, desde que começara a falar, demonstrara uma estranha peculiaridade. Odacir falava como se escreve. Sua primeira palavra não foi apenas "Gugu". Foi:
- Gu, hífen, gu...
Os pais se entreolharam, atônitos. O menino era um fenômeno. O pediatra não pôde explicar o que era aquilo. Apenas levantou uma dúvida.
- Não tenho certeza que "gugu" se escreve com hífen. Acho que é uma palavra só, como todas as expressões desse tipo. "Dadá", etc.
- Da, hífen, dá - disse o bebê, como que para liquidar com todas as dúvidas.
Um dia, a mãe veio correndo. Ouvira, do berço, o Odacir chamando:
- Mama sfot poc.
E, quando ela chegou perto:
- Mama sfotoim poc.
Só depois de muito tempo os pais se deram conta. "Sfot Poc" era ponto de exclamação e "sfotoim poc", ponto de interrogação.
Na escola, tentaram corrigir o menino.
- Odacir !
- Presente sfot poc.
- Vá para a sala da diretora!
- Mas o que foi que eu fiz sfotoim poc.
Com o tempo e as leituras, Odacir foi enriquecendo seu repertório de sons. Quando citava um trecho literário, começava e terminava a citaçao com "spt, spt". Eram as aspas. Aliás, não dizia nada sem antes prefaciar um "zit". Era o travessão. Foi para a sua primeira namorada que ele disse certa vez, maravilhado com a própria descoberta:
- Zit Marilda plic (vírgula) você já se deu conta que a gente sempre fala diálogo sfotoim poc.
- O quê?
- Zit nós sfot poc. Tudo que a gente diz é diálogo sfot poc.
- Olhe, Odacir. Você tem que parar de falar desse jeito. Eu gosto de você, mas o pessoal fala que você é meio biruta.
- Zit spt spt biruta spt spt sfotoim poc.
- Viu só? Você não pára de fazer esse ruídos. E ainda por cima, quando diz "sfotoim", cospe no meu olho.
O namoro acabou. Odacir aceitou o fato filosoficamente, aproveitando para citar o poeta.
- Zit spt spt. Que seja eterno enquanto dure poc poc poc spt spt.
Poc poc poc eram as reticências.
Odacir era fascinado por palavras. Tornou-se o orador da turma e até hoje o seu discurso de formatura (em Letras) é lembrado na faculdade. Como os colegas conheciam os hábitos de Odacir mas os pais e os convidados não, cada novo som do Odacir era interpretado, aos cochichos, na platéia:
- Zit meus senhores e minhas senhoras poc poc.
- Poc, poc? - Dois pontos.
- Que rapaz estranho...
- A senhora ainda não viu nada...
Quando lia um texto mais extenso, Odacir acompanhava a leitura com o corpo. As pessoas viam, literalmente, o Odacir mudar de parágrafo.
- Mas ele parece que está diminuindo de tamanho!
- Não, não. É que a cada novo parágrafo ele se abaixa um pouco.
Quando chegava ao fim de uma folha, Odacir estava quase no chão. Levantava-se para começar a ler a folha seguinte.
- Colegas sfot poc Mestres sfot poc Pais sfot poc. No limiar de uma era de grandes transformações sociais plic o que nós plic formando em Letras plic podemos oferecer ao mundo sfotoim poc.
A grande realização de Odacir foi o trema. Para interpretar o trema, Odacir não queria usar poc, poc, que podia ser confundido com dois pontos. Poc plic era ponto e vírgula. Um spt só era apóstrofe. Como seria trema? Odacir inventou um estalo de língua, algo como tlc, tlc. Difícil de fazer e até perigoso. Ainda bem que tinha poucas oportunidades de usar o trema.
Odacir, apesar de formado em Letras, acabou indo trabalhar no escritório de contabilidade do pai. Levava uma vida normal. Lia muito e sua conversa era entrecortada de spt, spts, citações dos seus autores favoritos. Mesmo assim casou - na cerimônia, quando Odacir disse "Aceito sfot poc", o padre foi visto discretamente enxugando um olho - e teve um filho. E qual não foi o seu horror ao ouvir o primeiro som produzido pelo recém-nascido:
- Zzzwwwwuauwwwuauzzz!
- Zit o que é isso sfotoim e sfot poc?
- Parece - disse a mulher, atônita - o som de uma guitarra elétrica.
O filho de Odacir, desde o berço, fazia a sua própria trilha sonora. Para a tristeza do pai, produzia até efeitos especiais, como câmara de eco. Cresceu sem dizer uma palavra. Até hoje anda por dentro de casa reverberando como um sintetizador eletrônico. É normal e feliz, mas o único som mais ou menos inteligível - pelo menos para seus pais - que faz é "tump tump", imitando o contrabaixo elétrico.
- Zit meu filho poc poc poc. Meu próprio filho poc poc poc. - diz Odacir.
Poc, poc, poc.
Luis Fernando Veríssimo
Ser poeta é imaginar o caminho e segui-lo!

Depois dessa, quem se habilita a ser poeta? O humor foi conquistado aqui pelo exagero do cronista. Uma leitura bem divertida...

Meio poeta

No dia em que Mônica e Otávio voltaram da lua-de-mel, Mônica chegou na casa dos pais e se trancou no quarto com a mãe. Precisava contar uma coisa e não queria que o pai ouvisse.
- O Otávio é poeta, mamãe.
A mãe levou as mãos à boca.
- Minha Virgem Santíssima!
Depois perguntou:
- Como você descobriu?
- Na primeira noite. A lua estava cheia. Ele fez umas frases sobre a luz da lua no meu corpo.
- Mas você tem certeza que era poesia? Rimava?
- Não rimava, mas era poesia. Ele mesmo disse, mamãe! Eu perguntei “O que é isso?” e ele respondeu “Eu sou meio poeta”.
- Bem que seu pai desconfiou...
- Você acha que devemos contar ao papai?
- É claro. E agora.
O pai disse “Eu sabia” e determinou que chamassem Otávio para se explicar. Mônica disse que Otávio ficara de buscá-la ali depois do trabalho. Os três esperaram a chegada de Otávio. A mãe, temendo algum excesso do pai, tentou amenizar a situação:
- Ele disse que é só “meio” poeta...
O pai não disse nada. Quando soou a campainha da porta, mandou que a filha fosse para o quarto. Otávio cumprimentou os sogros efusivamente - era a primeira vez que os via depois da festa do casamento - , mas logo percebeu a frieza deles.
- O que foi? - perguntou.
- Você não nos contou que era poeta - disse o pai.
- Mas eu não...
- Não adianta negar. A Mônica nos contou. Você pensou que ela não nos contaria?
- Mas foi só um...
- Sei. Um poeminha. É assim que começa. Um versinho hoje, um versinho amanhã. Não demora você estará fazendo poemas épicos, odes a qualquer coisa, diariamente. Já vi acontecer. Acabará abandonando o emprego, roubando a mesada da minha filha, para sustentar o hábito.
- Mas eu...
- Você vai dizer que pode parar quando quiser. É o que todos dizem.
- Meu filho - interveio a mãe, aflita -, você não se dá conta do mal que a poesia pode fazer? Há quanto tempo você...
- Não interessa - interrompeu o pai - O que ele fez antes não nos interessa. Mas agora está casado. Tem responsabilidades, tem que trabalhar para manter a família. Está num ramo competitivo, não pode facilitar. Eu sei, eu sei. A poesia é tentadora. Eu mesmo, na mocidade, fiz meus sonetos...
- Eurico!
- Nunca lhe contei isto, Marta, mas fiz. Felizmente tive um pai que me orientou e parei a tempo. A Mônica foi criada sem qualquer poesia. Qualquer sugestão de métrica, nós reprimíamos. E sempre a alertamos contra os poetas.
- Será - sugeriu a mãe - que não existe um programa de reabilitação? Alguém com quem você possa se aconselhar...
Mais uma vez o pai a interrompeu:
- A decisão tem que ser sua, Otávio. E tem que ser agora. Você compreende que não podemos deixar a Mônica sair desta casa, onde sempre teve toda a segurança, para viver com um poeta. Não nos dias de hoje. Faça a sua escolha. A Mônica, uma família, uma vida normal... ou a poesia. Otávio jurou que abandonaria a poesia para sempre, a Mônica foi chamada, os dois foram para o apartamento novo, Mônica um pouco desconfiada. Otávio ouvindo a advertência, na saída: “Olhe lá, hein?”
Hoje, sempre que fala com Mônica pelo telefone, a mãe pergunta:
- E o Otávio?
- Está bem, mamãe.
- Nunca mais...
- Nunca.
Às vezes, quando a família está toda reunida, Otávio diz umas coisas que provocam troca de olhares entre os outros e a suspeita de uma recaída. Depois a Mônica assegura que aquilo não é poesia, é só o jeito dele. Mas seu Eurico e dona Marta vivem preocupados com a filha. Nas noites de lua cheia, então, dona Marta nem consegue dormir direito.

Luís Fernando Veríssimo, Revista de Domingo, Jornal do Brasil, 25/4/93