Fotonovela
Quando você quis eu não quis
Qdo eu quis você ñ quis
Pensando mal quase q fui
Feliz
Cacaso. Poesia marginal. Ática - Col. Para Gostar de Ler nº 39 – São Paulo, 2006
domingo, 31 de agosto de 2008
Delírio puro
Quanto mais louco
lúcido estou.
No fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo.
Me confundo quando bóio
me conformo quando nado
me convenço quando afundo.
No fim do fundo
eu te amo.
Chacal. Poesia marginal. Ática - Col. Para Gostar de Ler nº 39 – São Paulo, 2006
Quanto mais louco
lúcido estou.
No fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo.
Me confundo quando bóio
me conformo quando nado
me convenço quando afundo.
No fim do fundo
eu te amo.
Chacal. Poesia marginal. Ática - Col. Para Gostar de Ler nº 39 – São Paulo, 2006
Poemas breves: flechas ligeiras no coração do leitor! Aí vão alguns “petits poèmes” de poetas alternativos ou marginais (que estão à margem da poesia oficial) como são designados.
Happy end
O meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente
Cacaso Poesia marginal. Ática Col. Para Gostar de Ler nº 39 – São Paulo, 2006
Happy end
O meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente
Cacaso Poesia marginal. Ática Col. Para Gostar de Ler nº 39 – São Paulo, 2006
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Esse poema vale por um discurso. Mas um discurso sem malabarismos. Ele nos toca porque é simples e vai direto ao ponto.
Estamos cansados de palavras bonitas, de efeitos, de retórica...
Viva a simplicidade! Viva a verdade!
Além da imaginação
Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
Mas não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece imaginação.
Ulisses Tavares Viva a poesia. São Paulo: Saraiva
Quase sempre presos aos nossos pequenos "problemas", esquecemos que há pessoas que sofrem de verdade.
Vamos agradecer pelo muito que recebemos, juntar as mãos e socorrer aqueles que precisam de ajuda até para as necessidades mais simples.
Estamos cansados de palavras bonitas, de efeitos, de retórica...
Viva a simplicidade! Viva a verdade!
Além da imaginação
Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
Mas não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece imaginação.
Ulisses Tavares Viva a poesia. São Paulo: Saraiva
Quase sempre presos aos nossos pequenos "problemas", esquecemos que há pessoas que sofrem de verdade.
Vamos agradecer pelo muito que recebemos, juntar as mãos e socorrer aqueles que precisam de ajuda até para as necessidades mais simples.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
História bem narrada... que envolve e emociona. Deixe-se levar por essa prosa gostosa!
Os textos que você vai ler a seguir são parte do livro A menina que descobriu o Brasil, de Ilka Brunhilde Laurito. Quem conta a história é a protagonista, Fortunata, uma italianinha de 10 anos que, acompanhada do irmão menor, chega ao Brasil para reencontrar a mãe e o padrasto. A história se passa no início do século XX, quando muitos italianos imigravam para o Brasil e se estabeleciam em São Paulo à procura de trabalho e se concentravam em bairros como o Brás, o Bexiga e a Liberdade, onde ocorre nossa história.O texto I é o início do livro. No texto II, Vincenzo Laurito, o padrasto de Fortunata, conta à menina um pouco da história dele.
TEXTO I

Minha história começa numa aldeia italiana, muitos e muitos anos atrás... E continua na cidade brasileira de São Paulo, muitos e muitos anos atrás... Atrás, onde?... Lá, no tempo e no espaço da minha memória.
Eu tinha dez anos quando, com meu irmão Caetaninho, cheguei ao porto de Santos para reunir-me à metade brasileira de minha família: minha mãe, meu padrasto e os meus irmãozinhos nascidos no Brasil.
O mar, aquele grande mar que apaga os rastros de todos os barcos, apagara as imagens de minha infância:
Domenico Gallo, meu pai, vovô Leone, pai de meu pai, vovó Catarina, mãe de minha mãe, todos sepultados
num pequeno cemitério de aldeia. Vivos, mas sepultados na minha lembrança, ficavam, como um aceno de saudade, padre Cherubino, irmão de meu pai, e vovô Vincenzo, pai de minha mãe.
Eu estava em São Paulo, eu estava em 1900. Um mundo novo, um novo século, uma nova idade. O
futuro era agora. E a menina que tinha vindo “fazer a América” ia crescer, deitar ramos, flores e frutos,
como uma árvore da Saracena, desarraigada e replantada em terra alheia.
Vou contar...
TEXTO II
—É uma longa história. Uma triste história.
Vou contar... [diz o padrasto]
E contou. A voz mansa foi saindo pela janela, desceu a rua Tamandaré, seguiu pela rua Glicério, encontrou o caminho do mar e mergulhou nas ondas de um passado naufragado, que agora voltava à tona.
— Eu me casei, lá na Saracena, com uma moça muito boa e trabalhadeira. Éramos camponeses pobres e lavrávamos a terra de outros. Então resolvemos tentar a sorte aqui na América, onde já estava meu irmão mais velho. Juntamos nossas economias e partimos, minha mulher e mais um filhinho de poucos meses. Embarcamos no porto de Gênova, onde a passagem para os imigrantes era mais barata.
— De terceira classe? — perguntei, lembrando-me da minha viagem.
— A classe dos imigrantes. Naqueles primeiros tempos era pior do que agora que você e Caetano vieram. Muito mais gente embarcava para a América, era difícil alimentar direito todo mundo e manter as condições de limpeza do navio. E aconteceu a desgraça.
— Desgraça? — repeti ansiosa.
Vincenzo Laurito pegou um grande lenço do bolso, igual àquele com que enrolava moedas, passou-o pelo nariz. E continuou:
— Sim, desgraça. Uma epidemia de cólera. Doença muito grave, você conhece?
Enquanto eu lhe dizia que, de doença grave, só conhecia o sarampo que me atacara na Saracena, ele explicava:
— É um mal terrível e pode matar em pouco tempo. E foi isso o que aconteceu. As pessoas vomitavam, ficavam amarelas, enfraqueciam, acabavam morrendo. E, como não havia outro jeito, os corpos eram jogados ao mar. Foi assim que eu perdi minha mulher e meu filhinho.
Soltei um grito sincero de horror, enquanto ele levava novamente o lenço ao nariz.
— Uma desgraça, Fortunata. Uma desgraça. O navio chegou ao Rio de Janeiro, mas eu não pude desembarcar. Fiquei de quarentena na Ilha das Flores, depois o Serviço de Imigração me mandou de volta para a Itália. Cheguei à Calábria muito mais pobre do que quando tinha partido, porque já não tinha nem mais a família.
Ouvindo Vincenzo Laurito narrar a história de sua primeira e trágica aventura de imigração, eu contava notas e moedas, pensando que aquele dinheiro não tinha o peso do ouro, não. Tinha o peso da vida.
— E depois? — perguntei, disfarçando a emoção.
Meu padrasto assoou definitivamente o nariz, guardou o lenço no bolso como se, com ele, também guardasse o antigo sofrimento.
— Depois, eu voltei viúvo para Saracena. E aí as comadres da aldeia me falaram de sua mãe, que também era viúva e moça como eu. Daí nós nos casamos, e eu decidi tentar novamente a vida na América com ela. Só que, dessa vez, achei que era mais seguro deixar as crianças na Itália...
Parei de contar as notas. Fiquei olhando aquele homem que, debruçado sobre a mesa, conferia o total das somas que eu fizera. E entendi por que minha mãe dizia, enquanto preparávamos o almoço dos domingos, que ele não era nem um pouco enjoado para comer. Comia de tudo. Menos peixe.
Também entendi por que eu e Caetaninho tínhamos ficado para trás na Saracena. E porque entendi, olhei-o com uma familiaridade nova: ali estava ele, Vincenzo Laurito — o mesmo olhar bondoso, as mesmas mãos rudes e cálidas, os mesmos gestos mansos e até o mesmo nome do meu querido avô Vincenzo Ventimiglia. E descobri que, daí por diante, ia ser muito fácil chamar esse homem de pai.

Ilka BrunhildeLaurito A menina que descobriu o Brasil. São Paulo: FTD, 1999. p. 5-6; 33-5.
Eu tinha dez anos quando, com meu irmão Caetaninho, cheguei ao porto de Santos para reunir-me à metade brasileira de minha família: minha mãe, meu padrasto e os meus irmãozinhos nascidos no Brasil.
O mar, aquele grande mar que apaga os rastros de todos os barcos, apagara as imagens de minha infância:
Domenico Gallo, meu pai, vovô Leone, pai de meu pai, vovó Catarina, mãe de minha mãe, todos sepultados
num pequeno cemitério de aldeia. Vivos, mas sepultados na minha lembrança, ficavam, como um aceno de saudade, padre Cherubino, irmão de meu pai, e vovô Vincenzo, pai de minha mãe.
Eu estava em São Paulo, eu estava em 1900. Um mundo novo, um novo século, uma nova idade. O
futuro era agora. E a menina que tinha vindo “fazer a América” ia crescer, deitar ramos, flores e frutos,
como uma árvore da Saracena, desarraigada e replantada em terra alheia.
Vou contar...
TEXTO II

—É uma longa história. Uma triste história.
Vou contar... [diz o padrasto]
E contou. A voz mansa foi saindo pela janela, desceu a rua Tamandaré, seguiu pela rua Glicério, encontrou o caminho do mar e mergulhou nas ondas de um passado naufragado, que agora voltava à tona.
— Eu me casei, lá na Saracena, com uma moça muito boa e trabalhadeira. Éramos camponeses pobres e lavrávamos a terra de outros. Então resolvemos tentar a sorte aqui na América, onde já estava meu irmão mais velho. Juntamos nossas economias e partimos, minha mulher e mais um filhinho de poucos meses. Embarcamos no porto de Gênova, onde a passagem para os imigrantes era mais barata.
— De terceira classe? — perguntei, lembrando-me da minha viagem.
— A classe dos imigrantes. Naqueles primeiros tempos era pior do que agora que você e Caetano vieram. Muito mais gente embarcava para a América, era difícil alimentar direito todo mundo e manter as condições de limpeza do navio. E aconteceu a desgraça.
— Desgraça? — repeti ansiosa.
Vincenzo Laurito pegou um grande lenço do bolso, igual àquele com que enrolava moedas, passou-o pelo nariz. E continuou:
— Sim, desgraça. Uma epidemia de cólera. Doença muito grave, você conhece?
Enquanto eu lhe dizia que, de doença grave, só conhecia o sarampo que me atacara na Saracena, ele explicava:
— É um mal terrível e pode matar em pouco tempo. E foi isso o que aconteceu. As pessoas vomitavam, ficavam amarelas, enfraqueciam, acabavam morrendo. E, como não havia outro jeito, os corpos eram jogados ao mar. Foi assim que eu perdi minha mulher e meu filhinho.
Soltei um grito sincero de horror, enquanto ele levava novamente o lenço ao nariz.
— Uma desgraça, Fortunata. Uma desgraça. O navio chegou ao Rio de Janeiro, mas eu não pude desembarcar. Fiquei de quarentena na Ilha das Flores, depois o Serviço de Imigração me mandou de volta para a Itália. Cheguei à Calábria muito mais pobre do que quando tinha partido, porque já não tinha nem mais a família.
Ouvindo Vincenzo Laurito narrar a história de sua primeira e trágica aventura de imigração, eu contava notas e moedas, pensando que aquele dinheiro não tinha o peso do ouro, não. Tinha o peso da vida.
— E depois? — perguntei, disfarçando a emoção.
Meu padrasto assoou definitivamente o nariz, guardou o lenço no bolso como se, com ele, também guardasse o antigo sofrimento.
— Depois, eu voltei viúvo para Saracena. E aí as comadres da aldeia me falaram de sua mãe, que também era viúva e moça como eu. Daí nós nos casamos, e eu decidi tentar novamente a vida na América com ela. Só que, dessa vez, achei que era mais seguro deixar as crianças na Itália...
Parei de contar as notas. Fiquei olhando aquele homem que, debruçado sobre a mesa, conferia o total das somas que eu fizera. E entendi por que minha mãe dizia, enquanto preparávamos o almoço dos domingos, que ele não era nem um pouco enjoado para comer. Comia de tudo. Menos peixe.
Também entendi por que eu e Caetaninho tínhamos ficado para trás na Saracena. E porque entendi, olhei-o com uma familiaridade nova: ali estava ele, Vincenzo Laurito — o mesmo olhar bondoso, as mesmas mãos rudes e cálidas, os mesmos gestos mansos e até o mesmo nome do meu querido avô Vincenzo Ventimiglia. E descobri que, daí por diante, ia ser muito fácil chamar esse homem de pai.

Ilka BrunhildeLaurito A menina que descobriu o Brasil. São Paulo: FTD, 1999. p. 5-6; 33-5.
O que você e um diamante têm em comum? Leia o texto e se surpreenda!

O DIAMANTE
Um dia, Maria chegou em casa da escola muito triste.
— O que foi? — perguntou a mãe de Maria.
Mas Maria nem quis conversa. Foi direto para o seu quarto, pegou o seu Snoopy e se atirou na cama, onde ficou deitada, emburrada.
A mãe de Maria foi ver se Maria estava com febre. Não estava. Perguntou se Maria estava sentindo alguma coisa. Não estava. Perguntou se estava com fome. Não estava. Perguntou o que era, então.
— Nada, disse Maria.
A mãe resolveu não insistir. Deixou Maria deitada na cama, abraçada com o seu Snoopy, emburrada.
Quando o pai de Maria chegou em casa do trabalho a mãe avisou:
— Melhor nem falar com ela...
Maria estava com cara de poucos amigos. Pior. Estava com cara de amigo nenhum.
Na mesa do jantar, Maria de repente falou:
— Eu não valo nada.
O pai de Maria disse:
— Em primeiro lugar, não se diz “eu não valo nada”. É “eu não valho nada”. Em segundo lugar, não é verdade. Você valhe muito. Quer dizer, vale muito.
— Não valho.
— Mas o que é isso? — disse a mãe de Maria. — Você é a nossa filha querida. Todos gostam de você. A mamãe, o papai, a vovó, os tios, as tias. Para nós, você é uma preciosidade.
Mas Maria não se convenceu. Disse que era igual a mil outras pessoas. A milhões de outras pessoas.
— Só na minha aula tem sete Marias!
— Querida... — começou a dizer a mãe. Mas o pai interrompeu.
— Maria — disse o pai —, você sabe por que um diamante vale tanto dinheiro?
— Porque é bonito.
— Porque é raro. Um pedaço de vidro também é bonito. Mas o vidro se encontra em toda parte. Um diamante é difícil de encontrar. Quanto mais rara é uma coisa, mais ela vale. Você sabe por que o ouro vale tanto?
— Por quê?
— Porque tem pouquíssimo ouro no mundo. Se o ouro fosse como areia, a gente ia caminhar no ouro, ia rolar no ouro, depois ia chegar em casa e lavar o ouro do corpo para não ficar suja. Agora, imagina se em todo o mundo só existisse uma pepita de ouro.
— Ia ser a coisa mais valiosa do mundo.
— Pois é. E em todo o mundo só existe uma Maria.
— Só na minha sala são sete.
— Mas são outras Marias.
— São iguais a mim. Dois olhos, um nariz...
— Mas esta pintinha aqui nenhuma delas tem.
— É...
— Você já se deu conta que em todo mundo só existe uma você?
— Mas, pai...
— Só uma. Você é uma raridade. Podem existir outras parecidas. Mas você, você mesmo, só existe uma. Se algum dia aparecer outra você na sua frente, você pode dizer: é falsa.
— Então eu sou a coisa mais valiosa do mundo.
— Olha, você deve estar valendo aí uns três trilhões...
Naquela noite a mãe de Maria passou perto do quarto dela e ouviu Maria falando com o Snoopy:
— Sabe um diamante?
Mas Maria nem quis conversa. Foi direto para o seu quarto, pegou o seu Snoopy e se atirou na cama, onde ficou deitada, emburrada.
A mãe de Maria foi ver se Maria estava com febre. Não estava. Perguntou se Maria estava sentindo alguma coisa. Não estava. Perguntou se estava com fome. Não estava. Perguntou o que era, então.
— Nada, disse Maria.
A mãe resolveu não insistir. Deixou Maria deitada na cama, abraçada com o seu Snoopy, emburrada.
Quando o pai de Maria chegou em casa do trabalho a mãe avisou:
— Melhor nem falar com ela...
Maria estava com cara de poucos amigos. Pior. Estava com cara de amigo nenhum.
Na mesa do jantar, Maria de repente falou:
— Eu não valo nada.
O pai de Maria disse:
— Em primeiro lugar, não se diz “eu não valo nada”. É “eu não valho nada”. Em segundo lugar, não é verdade. Você valhe muito. Quer dizer, vale muito.
— Não valho.
— Mas o que é isso? — disse a mãe de Maria. — Você é a nossa filha querida. Todos gostam de você. A mamãe, o papai, a vovó, os tios, as tias. Para nós, você é uma preciosidade.
Mas Maria não se convenceu. Disse que era igual a mil outras pessoas. A milhões de outras pessoas.
— Só na minha aula tem sete Marias!
— Querida... — começou a dizer a mãe. Mas o pai interrompeu.
— Maria — disse o pai —, você sabe por que um diamante vale tanto dinheiro?
— Porque é bonito.
— Porque é raro. Um pedaço de vidro também é bonito. Mas o vidro se encontra em toda parte. Um diamante é difícil de encontrar. Quanto mais rara é uma coisa, mais ela vale. Você sabe por que o ouro vale tanto?
— Por quê?
— Porque tem pouquíssimo ouro no mundo. Se o ouro fosse como areia, a gente ia caminhar no ouro, ia rolar no ouro, depois ia chegar em casa e lavar o ouro do corpo para não ficar suja. Agora, imagina se em todo o mundo só existisse uma pepita de ouro.
— Ia ser a coisa mais valiosa do mundo.

— Pois é. E em todo o mundo só existe uma Maria.
— Só na minha sala são sete.
— Mas são outras Marias.
— São iguais a mim. Dois olhos, um nariz...
— Mas esta pintinha aqui nenhuma delas tem.
— É...
— Você já se deu conta que em todo mundo só existe uma você?
— Mas, pai...
— Só uma. Você é uma raridade. Podem existir outras parecidas. Mas você, você mesmo, só existe uma. Se algum dia aparecer outra você na sua frente, você pode dizer: é falsa.

— Então eu sou a coisa mais valiosa do mundo.
— Olha, você deve estar valendo aí uns três trilhões...
Naquela noite a mãe de Maria passou perto do quarto dela e ouviu Maria falando com o Snoopy:
— Sabe um diamante?
(Luis Fernando Verissimo. O santinho. 3a. ed. Porto Alegre: L&PM, 1991. p. 10-2.)
in Português: Linguagens — William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães
in Português: Linguagens — William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães
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