sexta-feira, 31 de julho de 2009
Trabalho o dia todo,
todo dia sem falhar.
Não conheço feriado
nem sei o que é repousar.
Sempre em pé, sempre pronta!
Pensam que eu sou de aço?
Sei que sou uma vassoura
mas durmo em pé de cansaço!
Se a visita é bem chata
e com a hora não se importa
me viram de cabeça pra baixo
e fico tonta atrás da porta.
Detergente e sabão
ardem meus olhos pra valer.
O sabão em pó, então?
Ai, como é difícil viver!
Minha maior inimiga
é aquela sujeirinha teimosa
que gruda no chão feito cola
e comigo se faz de gostosa.
Quando é dia de festa,
me escondem com certeza.
Mas quando a festa acaba,
lembram de mim pra limpeza.
Enquanto há música e gente,
têm vergonha de mim.
Eu fico tão chateada
de só ser lembrada no fim...
De madrugada todos dormem,
menos eu e o lixeiro
que varremos a sujeira
das ruas do mundo inteiro.
As praias são tão grandes,
morro de tanto trabalhar.
Se todos sujassem menos,
menos tinha pra limpar.
Quanto mais velha eu fico
bem mais eu quero ficar,
pois só depois de bem velha
me deixam em paz pra brincar.
Guiomar de Paiva Brandão
Lá longe, perto do céu,
lá longe, no fim do mar
há um incêndio, um fogaréu
uma floresta a queimar?!
- Não, não! É um palácio de ouro,
de ouro, de ouro –
à flor do mar!
Por sobre as águas rolando,
branquejando, uma por uma,
passam nuvens a boiar...
nuvens branquinhas saltando,
nuvens branquinhas de espuma
sobre as águas a rolar?!
- Não, não: É um cavalo solto
que vai sem freio, revolto,
crina branca à flor do mar!
Quem me dera ir galopando
nesse cavalo espumando
e entre os ventos a voar...
galopando, galopando
até o palácio cor de ouro,
todo de ouro, além do mar!
Murilo Araújo. Antologia escolar de poemas para a infância. Org. Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Tecnoprint (Ediouro), s/d. p. 22.
Folhas Secas
Eu estava dando uma aula de Matemática e todos os alunos acompanhavam atentamente. Todos?
Quase. Carolina equilibrava o apontador na ponta da régua. Lucas recolhia as borrachas dos vizinhos e construía um prédio. Renata conferia as canetas e os lápis do seu estojo vermelhíssimo e Hélder olhava para o pátio.
O pátio? O que acontecia no pátio?
Após o recreio, dona Natália varria calmamente as folhas secas, amontoava e guardava tudo dentro de um enorme saco plástico azul. Terminando o varre-varre, dona Natália amarrou a boca do saco plástico e estacionou aquele bafuá de folhas secas perto do portão. Hélder observava atentamente. E eu observava a observação de Hélder – sem descuidar da minha aula de Matemática. De repente, Hélder foi arregalando os olhos e franzindo a testa.
Qual o motivo do espanto?
Hélder percebeu, no meio das folhas, alguma coisa se movimentando desesperadamente, com aflição, sufoco, falta de ar. Hélder buscava interpretações para a cena, analisava diversas possibilidades, mas o contorno do passarinho já se delineava na transparência azul do plástico. Isso! Um filhote de pássaro caiu do ninho, foi confundido com as folhas secas e foi varrido. Agora lutava pela liberdade.
– Ele tá preso!
O grito de Hélder interrompeu o final da multiplicação de 15 por 127. Todos os alunos olharam para o pátio. E todos nós concordamos, sem palavras: o bico do passarinho tentava romper aquela estranha pele azul. Hélder saiu da sala e nós fomos atrás. E, antes que eu pudesse pronunciar a primeira sílaba da palavra “calma”, o saco plástico simplesmente explodiu, as folhas secas voaram e as crianças pularam de alegria.
Alguns alunos dizem que havia dois passarinhos presos. Outros alunos viram três passarinhos voando felizes e agradecidos. Lucas diz que era um beija-flor. Renata insiste que era uma cigarra. Eu, sinceramente, só vi folhas secas voando.
Para concluir esta inesquecível aula de Matemática, pegamos vassouras, pás e sacos plásticos e fomos varrer o pátio.
Conto de Francisco Marques (Chico dos Bonecos). Revista Nova Escola.
Sem casa
Tem gente que não tem casa,
mora ao léu, debaixo da ponte.
No céu a lua espia
esse monte de gente
na rua
como se fosse papel.
Gente tem que ter
onde morar,
um canto, um quarto,
uma cama,
para no fim do dia
guardar o corpo cansado
com carinho, com cuidado,
que o corpo e a casa
dos pensamentos.
Roseana Murray. Casas. Formato.
Arnaldo Antunes
Olhos para ver o mar
Orelhas para plantar couve quando estão sujas
Dentes para morder a língua
Pescoço para segurar a cabeça
Pés para ir ao circo
Cabelos para não esquentar a cabeça
Nariz para descobrir que tem bolo
Boca para dizer: oi!
Braços para abraçar os amigos
Mãos para fazer carinho
Pernas para correr o mundo
Bem-te-vi
Amigo gentil
todas as manhãs
me espera no fio.
Sempre feliz,
grita
assim que me vê:
-Bem-te-vi!!
-Bem-te-vi!!
Fiscal da Natureza
sempre atento
nunca dá moleza.
Se a motossera
fere
o jatobá,
o jacarandá,
ou o ipê,
ele logo vê,
e, nervoso, grita assim:
-Te vi!
-Te vi!