terça-feira, 12 de setembro de 2017

Guerra

Estamos em guerra, não há dúvida. Não me refiro à guerra fria entre a URSS e os Estados Unidos nem à guerra econômica deste contra Cuba. Refiro-me à guerra cotidiana, essa que todos nós pelejamos, mal começa o dia. Guerra não declarada, não percebida pela maioria — mas guerra de fato. Nem fria nem quente: morna.
Trata-se de uma guerra minuciosa e sem quartel, sem exércitos formados e sem generais (bem, há os generais, mas, na batalha cotidiana, cada general comanda a si mesmo: e somos todos generais). É a guerra do leite, da carne, do pão, da manteiga, do emprego, do amigo, do inimigo, do lotação, do trem, do elevador. Batalhas tachistas, indeterminadas e sinuosas. Não obstante, duras.
Dentro dessa guerra cotidiana, há batalhas microscópicas: é um sujeito que lhe pisa o pé ou o empurra. Você reclama ou não, revida ou não. O outro também está guerreando, de arma em riste, e lá vai a guerra para diante. E há a guerra subterrânea da memória, a chamada luta intestina do homem consigo mesmo, do adulto com a criança soterrada, do coração com a mente. Olho da janela e vejo a avenida cheia, pessoas que vão e vêm, na aparente tranquilidade desta morna guerra.

Quem me chamou a atenção para esse fato foi um amigo, que entrou comigo numa loja de artigos para homens, na Lapa, há uns seis anos. Havia na vitrina uma camisa simpática e bem barata. O dinheiro era curto e a ocasião, propícia. Entramos para ver, mas o vendedor só nos mostrava camisas que custavam o dobro da exposta. Depois de muito,  confessou que da que estava na vitrina não havia mais em estoque.  Mas o fez com maus modos, e eu revidei: "É por isso que sua loja fica às moscas. Vocês embromam os fregueses”. Disse e fui saindo com meu amigo. E eis que o dono da loja e os empregados avançaram para nós aos insultos. Tratamos evidentemente de dar o fora, contentando-nos com os revides, de longe. Nesta altura, meu amigo teve a frase definitiva: "Vocês estão querendo é guerrear".  Era mesmo.  E nesta batalha estamos todos, inapelavelmente. Todos os dias, tomo meu banho e meu café, visto-me, dou adeus aos meninos e saio para guerrear.  À noite, se volto, volto ileso ou ferido, mas as feridas ninguém vê.

        (GULLAR, Ferreira. O menino e o arco-íris. São Paulo: Ática, 2001. Págs.73-74)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Dom Ramiro vai à Europa


Ninguém, das centenas de pessoas que estavam àquela tarde no Aeroporto de Ezeiza, poderia imaginar quanto custara ao dr. Ramiro González chegar até ali: maletas fechadas a chave, passaporte e passagem na mão, esperando o momento de embarcar para a distante e mitológica Europa. Mas o fundamental é que estava tudo em ordem. E previsto.
A coisa começou vários meses atrás, quando Ramiro cedeu à pressão da filha e da mulher. "Precisas conhecer a Europa, papai. Chega de trabalhar, trabalhar. Chegaste já aos cinquenta e a vida se vai." Essas últimas palavras fizeram estremecer o acomodado coração de Ramiro: a vida se vai. No dia seguinte, no consultório, entre um cliente e outro, as palavras voltavam-lhe à memória: se vai, se vai... De volta à casa, abriu o jornal e não conseguiu ler as notícias com atenção: Paris, UP; Londres, UP; Roma, Berlim, Milão... Esses nomes de cidades famosas provocavam um redemoinho de sonhos e desejos em sua alma. E medo também. Comparava sua rua tranquila, a sala de sua casa, tudo conhecido e seguro. Por quais ruas e avenidas, por quais quartos de hotéis e restaurantes iria pervagar? Que poderia acontecer com ele e sua pobre mulher soltos num mundo desconhecido? Mas, ao mesmo tempo, lembrava-se de que a vida se ia.
Um belo dia entrou em casa decidido. Chamou a mulher e comunicou-lhe a decisão de ir com ela à Europa.
— Mas aonde? Paris? Londres?
— Ainda não sei. Vamos estudar a coisa pacientemente.
Mas, tomada a decisão, tudo se precipitou. No dia seguinte, entrava em casa carregado de folhetos turísticos, guias de viagem, mapas de cidades. Depois do jantar, ele, a mulher e a filha começaram a examinar os possíveis roteiros. Perderam nisso toda a noite e foram dormir aflitos. No dia seguinte, antes do café da manhã, já estava ele a examinar mapas e rotas aéreas. Saiu, comprou um mapa grande da Europa.  Ao fim de alguns dias, estava traçado o roteiro, e iniciou-se uma nova etapa da "viagem".  
Agora, tratava-se de escolher os hotéis em cada cidade.
— Isso se escolhe lá — sugeriu a mulher impaciente.
— Lá?! Só saio daqui com tudo acertado, ou não vou.    
Visitou agências de turismo, embaixadas, anotou preços, calculou a conversão das moedas, e numa semana definira os hotéis onde ficariam hospedados. Perfeito, mas que faremos nessas cidades? Que lugares visitaremos? A mulher fez cara de aborrecimento. Ele seguiu em frente, pesquisando os pontos turísticos mais interessantes de cada cidade: museus, igrejas...
— Não gosto de museu — declarou a mulher. — Não vou fazer uma viagem tão longa pra me meter numa casa cheia de quadros velhos!
— Quadros velhos, sua ignorante! Obras célebres!
— Quero é passear, conhecer as lojas, as ruas, os lugares bonitos.
— Isso também — admitiu ele.
E com uma caneta ia assinalando, no mapa de Paris, a rua do hotel onde se hospedariam e os diferentes pontos que visitariam.
— Na primeira manhã — dizia ele — sairemos do hotel e caminharemos por esta rua, está vendo aqui?
— Que rua? Isso é um labirinto infernal.
— Esta. Bem, seguiremos até esta esquina, dobraremos à direita, o Louvre está a umas poucas quadras...
— Desse jeito, não vai ser preciso viajar.  Já estás em Paris, caminhando pelas ruas... Que graça tem isso? 
— E que graça tem se perder numa cidade como essa, se mal sabemos algumas palavras em francês?
— Tu, porque eu falo francês correntemente!
— Eu sei!...
Houve atritos, discussões, amuos. Quase cancelam a viagem. Mas para ele isso já era impossível: se metera naquilo até o pescoço. E assim, o coração pulsando forte, Ramiro e a mulher estavam agora ali, em frente ao balcão da Aerolíneas Argentinas, prestes a voar.
E voaram. Despediram-se da filha e dos sogros, e entre vaidosos e assustados entraram no avião que os levaria até Madri, onde fariam uma conexão para Atenas.
Era uma tarde límpida e eles cruzaram o Atlântico sorrindo. Quando chegaram a Madri, muitas horas depois, o avião da conexão havia sido sequestrado. Reinava uma grande confusão no tráfego aéreo. Na confusão, as maletas desapareceram. Foram levados para um hotel que não escolheram, numa cidade que não fazia parte do roteiro que traçaram e passaram a noite lavando camisa, cueca e calcinhas para poder vestir no dia seguinte.
A mulher cantarolava e o olhava de soslaio.
— Os teus planos, hein, Ramiro?

Ele fazia que não ouvia.

      (GULLAR, Ferreira. O menino e o arco-íris. São Paulo: Ática, 2001. pp. 54-57)
O ovo

Aquele restaurante era tão triste como a maioria desses pequenos restaurantes que, depois das sete da noite, dão de comer à fauna dos trabalhadores noturnos. Pessoas sozinhas em mesas de dois e quatro lugares, pessoas que são sempre as mesmas, àquela hora, mas que não se falam nem se cumprimentam. Comem em silêncio e vão embora. O ambiente era esse até que apareceu o homem do ovo, um sujeitinho magro de cara chupada.
– Já escolheu?
– Quero um ovo, mas nem cozido, nem frito, nem quente...
– Como?
– Quero um ovo entre cozido e quente, sabe? Nem muito mole, nem muito duro.
Era natural que a coisa não desse certo. O garçom pediu na cozinha "um ovo cozido mal passado". Trouxe-o para a mesa, o homenzinho olhou desaprovou com a cabeça: estava mole demais. O garçom desculpou-se e prometeu trazer outro ovo, no "ponto" exato. Trouxe. O homenzinho de novo desaprovou: estava duro demais. "Como hoje assim mesmo; amanhã, daremos jeito."
Na noite seguinte, disse ao garçom: "Avisa ao cozinheiro que deixe o ovo ferver durante três minutos e meio, nem mais nem menos". Mas ainda não era dessa vez que se atingiria o ideal. "Sei o que foi" – disse o freguês –, "ele pôs o ovo na caçarola antes da água ferver". O próximo ovo teria mais chance. "Lembre-se: três minutos e meio precisamente." O garçom explicou que não tinha relógio, o cozinheiro também não.
Veio o dono do restaurante. "Precisamos de alguém que controle o tempo de preparo de um ovo”, explicou-lhe o homenzinho. O dono controlaria. "Quando a água ferver, me avise e eu dou o sinal para colocar o ovo na panela. Nosso amigo fica observando o ponteiro de segundos, OK?"
A essa altura o restaurante parara para acompanhar a operação ovo. "Começou a ferver." "Pronto, ponha o ovo na panela." Durante três minutos e meio houve um silêncio total. "Pode tirar", gritou o patrão. E quando o garçom veio com o ovo, os fregueses rodearam a mesa do homenzinho, que já o descascava: "Ótimo".
E a partir desse dia, o restaurante ganhou outra vida: chegada a hora do ovo, todos paravam de comer e ficavam esperando. Nasciam discussões sobre o tempo exato para conseguir um ovo daqueles. "Seu relógio atrasa." "Nada disso, uso relógio de aviador." "Para ovo de casca pintada o tempo é três minutos e cinquenta e oito segundos." "É muito: três e cinquenta e sete." Mais tarde surgiram as apostas e dúzias de ovos eram devorados àquela hora. Em consequência disso, o restaurante prosperou e a freguesia engordou. Mas o homenzinho procurou outro restaurante onde pudesse controlar o tempo exato de seu ovo e comê-lo em paz.


(GULLAR, Ferreira. O menino e o arco-íris. São Paulo: Ática, 2001. pp. 51-53)
Tesouro

Onde tem formiga tem ouro – diziam os mais velhos. E essa afirmativa fabulosa vinha​-nos sempre à lembrança quando as formigas de asa, filhas do Inverno, começavam a brotar das tábuas velhas do assoalho. Cheguei mesmo a propor a meu pai que retirássemos as tábuas do quarto e cavássemos o chão: o ouro compensaria o trabalho.
– Que ouro nada, menino! Aí tem é aranha e barata.
Mas as lendas de tesouro não nasceram sem razão: têm raízes profundas no homem. As crianças, que ainda não têm do mundo uma visão tão dura e pobre, não desistem tão facilmente dos tesouros ocultos. Nós lá de casa não desistimos.
Um belo dia, uma de minhas irmãs sonhou que havia uma caixa de dinheiro enterrada no quintal. Uma voz lhe dissera: “dê cinco passos a partir da mangueira na direção das bananeiras; nesse ponto está o tesouro enterrado”.
Decidimos desenterrá-lo. Tínhamos uma picareta e uma pá, que nos pareceram suficientes para realizar o trabalho. Marcamos a direção, contamos os passos e começamos a cavar. Éramos cinco, contando com a lavadeira, que foi convocada para o serviço extraordinário. Nós nos revezamos e o buraco foi crescendo. Ao meio-dia, quando entramos em casa para almoçar, nossa mãe levou um susto: tínhamos barro dos pés às sobrancelhas. Depois do almoço, com o sol ainda quente, voltamos ao trabalho. E cavamos sem interrupção até à hora do jantar.
Cavávamos e sonhávamos. A dona do tesouro – a que ouvira a voz – prometia repartir as moedas entre todos. A lavadeira teria também uma boa recompensa. Compraríamos roupas novas, brinquedos, doces e daríamos uma festa com orquestra. De minha parte, entre cético e fascinado, pensava apenas na descoberta: seria formidável que tudo fosse verdade, que ali houvesse realmente uma caixa de moedas de ouro.
Os adultos de casa riram muito de nós, à mesa do jantar. Mas ninguém sugeriu que interrompêssemos a escavação. Além do mais, já encontráramos um indício: uma imagem de alumínio representando São Jorge. Ali havia alguma coisa – estávamos convictos. Cavamos noite adentro, à luz de velas.
A faina foi retomada na manhã seguinte, bem cedo. É certo que, a essa altura, a pá e a picareta doíam em nossas mãos cheias de bolhas d'água. O buraco já me batia pela cintura. Em ritmo mais lento atravessamos este segundo dia e interrompemos o trabalho ao anoitecer. Prometêramos continuar durante a noite, mas estávamos exaustos e fomos dormir cedo.
O outro dia amanheceu chovendo, e a chuva durou o dia todo. Não trabalhamos. Na manhã seguinte, o sol se abriu, mas nosso entusiasmo já se tinha fechado. O buraco estava cheio de água e era desagradável mexer com aquela lama.
Faz muitos anos que isso aconteceu. O tempo deve ter fechado o buraco que nosso sonho abrira em vão. Mas aqueles dois dias de trabalho em equipe valeram o ouro que não existia em nosso quintal.

                 (GULLAR, Ferreira. O menino e o arco-íris. São Paulo: Ática, 2001. Págs.15-16)
                                                                    O menino e o arco-íris 

          Era uma vez um menino curioso e entediado. Começou assustando-se com as cadeiras, as mesas e os demais objetos domésticos. Apalpava-os, mordia-os e jogava-os no chão: esperava certamente uma resposta que os objetos não lhe davam. Descobriu alguns objetos mais interessantes que os sapatos: os copos – estes, quando atirados ao chão, quebravam-se. Já era alguma coisa, pelo menos não permaneciam os mesmos depois da ação. Mas logo o menino (que era profundamente entediado) cansou-se dos copos: no fim de tudo era vidro e só vidro. 
          Mais tarde pôde passar para o quintal e descobriu as galinhas e as plantas. Já eram mais interessantes, sobretudo as galinhas, que falavam uma língua incompreensível e bicavam a terra. Conheceu o peru, a galinha-d´Angola e o pavão. Mas logo se acostumou a todos eles, e continuou entediado como sempre. 
           Não pensava, não indagava com palavras, mas explorava sem cessar a realidade. Quando pôde sair à rua, teve novas esperanças: um dia escapou e percorreu o maior espaço possível, ruas, praças, largos onde meninos jogavam futebol, viu igrejas, automóveis e um trator que modificava um terreno. Perdeu-se. Fugiu outra vez para ver o trator trabalhando. Mas eis que o trabalho do trator deu na banalidade: canteiros para flores convencionais, um coreto etc. E o menino cansou-se da rua, voltou para o seu quintal. 
         Começou a cavar. Estava certo de que encontraria, ali, alguma coisa surpreendente. Cavou, cavou: achou uma rodela de metal, correu com ela para limpá-la e se decepcionou – era um níquel de 300 réis. Saiu de casa para cavar num terreno baldio e lá não encontrou nada mais que um caco azul de vidro de leite magnésia. Acreditou, de início, tratar-se de fragmento de osso de algum animal estranho: osso de anjo? Não era.
          O tédio levou o menino aos jogos de azar, aos banhos de mar e às viagens para a outra margem do rio. A margem de lá era igual à de cá. O menino cresceu e, no amor como no cinema, não encontrou o que procurava. Um dia, passando por um córrego, viu que as águas eram coloridas. Desceu pela margem, examinou: eram coloridas! 
           Desde então, todos os dias dava um jeito de ir ver as cores do córrego. Mas quando alguém lhe disse que o colorido das águas provinha de uma lavanderia próxima, começou a gritar que não, que as águas vinham do arco-íris. Foi recolhido ao manicômio. E daí? 
                   (GULLAR, Ferreira. O menino e o arco-íris. São Paulo: Ática, 2001. págs.11-12) 

domingo, 11 de junho de 2017

Contos populares


Kanniferstan – Conto alemão

Ouvi esta história faz muito tempo, quando eu era pequena, ainda antes de chegar ao Brasil, vinda da Rússia, aos 10 anos de idade. Quem a contou - ou leu - para mim foi o meu pai, que era um grande contador de histórias. E aí vai esta velha história, recontada conforme eu me lembro dela...
Os alemães sempre foram grandes andarilhos e, desde tempos remotos, faziam longas viagens a pé ou pegando carona em carroças, de vez em quando, conforme a sorte de cada um, só para "conhecer o mundo" - mesmo sendo muito pobres. Saíam de mochila nas costas e cajado na mão e, para adquirir experiência de vida, aventuravam--se, nem eles mesmos sabiam para onde e até onde.
E foi assim que um belo dia Hans, um pobre obreiro alemão, foi parar em Amsterdã, importante cidade portuária da Holanda, muito distante da aldeia do nosso andarilho.
Amsterdã deixou o pobre Hans embasbacado. A cidade era grande, opulenta e ruidosa, casas e mais casas, uma infinidade de embarcações de todos os tipos e uma multidão de gente atarefada por toda a parte. Boquiaberto, o nosso deslumbrado alemão reparou de repente numa casa de tamanho que ele não imaginara nem em sonho. Só de chaminés aquele telhado tinha mais de dez, três andares, janelas faiscantes e um porão enorme — um espanto só!
Então, com um tímido cumprimento, Hans dirigiu-se ao primeiro transeunte e lhe perguntou:
— De quem é esta casa, com tantas janelas cheias de tulipas, narcisos e rosas?
Mas, ao que parece, aquele transeunte estava muito apressado, ou sabia tanto alemão quanto Hans holandês, ou seja, nada. O fato é que ele respondeu apenas com uma única palavra:
— Kanniferstan.
O simplório alemão concluiu que aquele era o nome do proprietário do importante casarão e pensou com os seus botões: “Deve ser um bocado rico esse senhor Kanniferstan...”. E continuou o seu caminho pelas ruas da grande cidade.
Pouco depois, ele chegou ao porto e ficou tonto ao ver tantos mastros, pareceu estar diante de uma floresta. E logo o seu olhar se deteve em um enorme navio ancorado, recém-chegado da Índia, com toda uma multidão se aglomerando ao lado da majestosa embarcação, que estava sendo descarregada. Eram verdadeiras montanhas de sacos, fardos, caixas e barris de mercadorias, cheios de café, açúcar, pimenta, grãos, arroz, especiarias e muita coisa mais. De queixo caído, nosso alemão olhava para tudo aquilo e ficou com vontade de saber a quem pertencia tamanha fartura.
Então ele perguntou a um vigoroso marujo, que carregava enorme fardo na cabeça, como se chamava o senhor a quem o mar trouxera tantos tesouros de uma só vez.
De cenho franzido, o marujo respondeu, de passagem:
— Kanniferstan - e se foi com a sua carga.
— Outra vez! — exclamou Hans em voz alta. — Ora quem diria! Mas que nababo é esse Kanniferstan! Com tamanha fortuna nem é tão difícil construir um casarão daquele tamanho e encher cem janelas com vasos dourados de tantas tulipas, narcisos e rosas!
E Hans prosseguiu no seu caminho, pensativo. Assim, caminhando e pensando, ele foi tomado de grande tristeza ao matutar quanta gente rica havia no mundo, enquanto ele, Hans, era pobre como um rato de igreja. E como seria bom se ele, Hans, o pobre Hans, fosse igual àquele Kanniferstan e como seria a sua vida, quando... quando ele viu, de repente, um cortejo fúnebre passando na sua frente.
O Hans viu uma parelha de cavalos, cobertos por mantas negras, puxando uma bela carreta com um rico esquife, em passos vagarosos, como se soubessem que estavam levando o defunto, no seu caixão, para a sepultura, para todo o sempre.
Seguindo o féretro, a pé, marchavam lentamente parentes, amigos e conhecidos, em luto solene e silencioso. Ao longe, ouvia-se o sino da igreja dobrar, solitário.
Hans foi tomado de grande tristeza, como alma boa e humilda que era, à vista desse melancólico espetáculo. Tirando o chapéu e murmurando uma prece, ele acompanhou com os olhos o silencioso cortejo.
Depois, aproximando-se de uma das últimas pessoas que seguiam o esquife, um senhor que estava muito ocupado com um assunto importante - calcular quanto lucro ele auferiria da venda da canela e da pimenta —, Hans puxou-o timidamente pela manga e disse:
— Penso que o falecido era seu bom amigo, já que o vejo tão pensativo. Com todo o respeito, posso perguntar quem era ele?
— Kanniferstan — foi a lacônica e impaciente resposta.
As lágrimas jorraram dos olhos do honrado alemão, que sentiu o coração oprimido e pesado... Mas, logo em seguida, ele o sentiu leve de novo. E, com um suspiro, o nosso Hans disse:
— Pobre, pobre Kanniferstan! De tamanha fartura e riqueza, o que lhe restou? Não será o mesmo que a mim, mais cedo ou mais tarde, sobrará de toda a minha pobreza? Urna simples mortalha e um estreito caixão!
Mergulhado nesses pensamentos, Hans se arrastou atrás dos enlutados, como se ele próprio fosse parente do morto.
Hans entrou na igreja, junto com os outros. Lá ele ouviu contrito o sermão em holandês, do qual não entendeu nada, mas escutou com profundo sentimento.
E depois, quando o corpo de Kanniferstan foi entregue à terra, Hans chorou copiosamente e por fim, de coração aliviado e alma lavada, deixou Amsterdã e seguiu a sua jornada de andarilho.
Desde aquele dia, sempre que a tristeza o visitava, e ele ficava deprimido ao ver a felicidade das pessoas ricas, Hans se consolava, lembrando-se de Kanniferstan, com sua casa luxuosa, seu grande navio... e sua estreita sepultura.
Mas o que o bom Hans não sabia, e nunca ficou sabendo, é que o nome ou, melhor dizendo, a palavra kanniferstan, na verdade "ik kan je niet verstaan", que ele ouvira tantas vezes naquele dia em Amsterdã, significava em holandês "eu não compreendo"!



O diabo e o granjeiro - Conto alemão

Um pobre lavrador precisava construir a casa da sua pequena granja, mas não conseguia realizar esse sonho. O que ganhava mal dava para alimentar os dois, ele e sua mulher. Por mais economia que fizesse, não conseguia juntar o necessário para começar a construção.
Um dia, estando a caminhar pelo seu pedaço de chão, mergulhado em tristes pensamentos, deu com um velho esquisito, que lhe disse, com voz desagradável:
‒ Para de te preocupar, homem. Eu posso resolver o teu problema antes do primeiro canto do galo, amanhã cedo.
— Como assim? — espantou-se o lavrador.
— Tu precisas construir a casa da granja, certo? Pois eu me encarrego de construir e entregar-te essa obra, antes do canto do galo, em troca de uma pequena promessa tua.
— Que promessa? Não tenho nada para te oferecer em troca de tal serviço.
— Não importa: o que quero que me prometas é um bem que tu tens, mas ainda não sabes. É pegar ou largar.
O pobre granjeiro pensou com seus botões: "O que é que eu tenho a perder?". E, sem hesitar mais, respondeu ao velho que aceitava o trato, fazendo a promessa.
— Só que quero ver a casa da granja construída amanhã, antes do canto do galo — observou ele, ainda meio incrédulo.
Voltou correndo para casa, para comunicar à esposa o bom negócio que acabara de fechar.
A pobre mulher ficou horrorizada:
— Tu és louco, marido! Acabas de prometer ao velho, que só pode ser o próprio diabo, o nosso primeiro filho, que vai nascer daqui a alguns meses!
O homem, que não sabia da gravidez, pôs as mãos na cabeça, mas não havia mais nada a fazer: o pacto estava selado.
Porém a mulher, que não estava disposta a aceitá-lo, ficou pensando num jeito de frustrar o plano do diabo. E, naquela noite, sem conseguir dormir, ficou o tempo todo escutando, apavorada, o barulho que o diabo e seus auxiliares infernais faziam ao construírem a tal obra com espantosa rapidez.
A noite ia passando, aproximava-se a madrugada. Mas, pouco antes de o céu clarear, quando faltavam só umas poucas telhas para a conclusão da obra, a atenta mulher do granjeiro pulou da cama e, rápida e ágil, correu até o galinheiro, onde o galo ainda não despertara.
Tomando fôlego, imitou o canto do galo, com tal perfeição, que todos os galos da vizinhança, junto com o seu próprio, lhe responderam com um coro sonoro de cocoricós matinais, momentos antes do romper da aurora. Como um trato com o diabo tem de ser estritamente observado, tanto pela vítima como por ele mesmo, a obra em final de construção teve de ser parada naquele mesmo instante, por quebra de contrato, “antes do primeiro canto do galo”.
E o diabo, espumando de raiva por se ver assim ludibriado e espoliado, se mandou de volta para o inferno, junto com os seus acólitos, para nunca mais voltar àquele lugar.
A casa da granja permaneceu construída, para alegria do granjeiro, faltando apenas aquelas poucas telhas, que jamais puderam ser colocadas.


As três respostas – Conto inglês

Na Inglaterra, daquele tempo, vivia na corte do rei João um importante prelado, o abade de Canterbury, tão vaidoso que um dia chegou a se vangloriar de ser mais rico e de ter um palácio mais belo do que o do próprio soberano.
Quando essa notícia chegou aos seus ouvidos, o monarca ficou muito irritado e mandou convocar o prelado à sua presença.
O abade apressou-se a comparecer perante o rei, sem desconfiar da surpresa que o aguardava. O rei João foi ríspido, dizendo que a gabolice do abade constituía crime de lesa-majestade, punido com a pena de morte e o confisco dos bens do réu.
O abade tremeu de medo, jurando ser inocente e implorando o perdão real. E tanto suplicou que o rei João, fingindo compadecer-se dele, disse que o perdoaria, se ele respondesse às três perguntas que lhe faria em seguida.
— A primeira pergunta é a seguinte: assim como me vês, sentado no meu trono de ouro, com a minha coroa na cabeça e o cetro na mão, dize-me quanto eu valho em dinheiro. A segunda pergunta é: quanto tempo eu levaria a cavalo para fazer a volta ao mundo? E a terceira é: o que eu estou pensando aqui e agora?
Assustado, o abade de Canterbury pediu ao rei João que lhe concedesse três dias para pensar nas respostas. O rei, fazendo-se de generoso e certo de que o prelado jamais responderia às suas perguntas, concedeu-lhe esse prazo.
O abade saiu apressado, consultou doutores, sábios e feiticeiros, mas ninguém soube responder àquelas perguntas. Ao entardecer do terceiro dia, de volta ao seu palácio, cruzou com o pastor do seu rebanho de ovelhas. Reparando no aspecto abatido do amo, o pastor lhe perguntou qual a razão de tamanha tristeza. O abade, num desabafo, contou-lhe sua infeliz e perigosa situação. E muito se surpreendeu ao ouvir do pastor uma estranha proposta:
— Acho que sei a solução para o seu o seu caso. Repare que nós dois temos a mesma altura e o mesmo porte. Se confiar em mim, eu me apresentarei amanhã em seu lugar perante o rei, disfarçado, em traje de monge. Se Deus quiser, acharei as respostas às três perguntas.
Como não tinha nada a perder, o abade concordou com o plano.
No dia seguinte, o pastor, encoberto pelo capuz do hábito de monge, apresentou-se ao rei João, à espera das três perguntas, que o monarca lhe fez em seguida, sem reconhecê-lo.
— Então, abade atrevido, responde-me sem hesitar: assim como me vês, sentado no meu trono de ouro, com a minha coroa na cabeça e o cetro na mão, quanto eu valho em dinheiro?
— A resposta — disse o pastor disfarçado — é a seguinte: Nosso Salvador foi vendido por 30 moedas. Portanto, o vosso valor é 29 moedas, pois acho que Vossa Majestade concordará que vale uma moeda a menos do que Nosso Senhor.
— Não pensei que eu valesse tão pouco — sorriu o rei. - Mas dize-me agora em quanto tempo posso cavalgar em volta do mundo.
— Vossa Majestade — respondeu o falso abade — deve levantar-se ao nascer do dia e cavalgar atrás do Sol até a manhã seguinte, quando o astro nascer outra vez.  Assim, sem erro, terá dado a volta ao mundo em vinte e quatro horas.
— Nunca pensei — riu o rei —  que a volta ao mundo pudesse ser feita tão depressa. Mas agora me diga, abade, o que estou pensando neste exato momento?
— Vossa Majestade — respondeu o esperto pastor — pensa que está falando com o abade de Canterbury. Mas a verdade é que não passo de um pobre pastor de ovelhas.
E, afastando do rosto o capuz de monge, concluiu:
— Estou aqui para pedir perdão para mim e para o meu amo, o abade.
Dessa vez, o rei João riu às gargalhadas e disse:

— Por teres alegrado o meu dia, eu te perdoo pelo atrevimento e mando te dar uma bolsa de dinheiro como recompensa. Vai em paz e dize ao teu patrão que te agradeça porque, graças a ti, eu o perdoo também. Mas ele que se guarde de novas gabolices!


O samurai e a cerejeira – Conto japonês

No distrito de Iyo, no Japão, existe uma árvore antiquíssima. É chamada de "cerejeira do décimo sexto dia" porque, nesse dia do primeiro mês do ano lunar, ela se cobre de flores — e somente nesse dia. As cerejeiras costumam florir na primavera, mas essa é diferente: floresce no inverno, porque dentro dela habita o espírito de um ser humano.
Sobre ela conta-se curiosa história. Há muitos e muitos séculos, a cerejeira crescia no jardim de um samurai, um guerreiro, que a amava muito. Durante muitos anos, ele se deliciou com a formosa e perfumada florada no décimo sexto dia do primeiro mês de cada ano.
O samurai teve vida longa. Viveu tanto tempo que viu morrer toda a sua família: pais, irmãos, filhos, netos e até bisnetos. Ficou muito velho e muito só, sem ninguém a quem dedicar afeto e carinho. Vira a cerejeira crescer e florescer desde criança. Os pais e os avós dele já haviam brincado à sombra da árvore.
Na sua solidão de ancião, todo o amor do samurai se voltou para aquela cerejeira já bem velha, mas que ficava viçosa e florida sempre no mesmo dia, todos os anos, para alegria e consolo de seu coração solitário.
Os anos foram passando. Até que, num décimo sexto dia do primeiro mês de certo ano, a cerejeira amanheceu nua e seca. O velho caiu em profunda tristeza. Não deixou que arrancassem a árvore morta, na esperança de que no ano seguinte ela revivesse. Mas a pobre cerejeira ficava cada vez mais seca.
O samurai ficou tão abatido que os vizinhos se condoeram e deram-lhe de presente uma cerejeira nova, a mais bonita que puderam encontrar. O velhinho agradeceu, fingindo ficar satisfeito com o presente, mas no fundo da alma continuava roído de tristeza. Sentia saudade da florada de inverno da árvore amada.
Dia e noite ele pensava na cerejeira, inconsolável.
No ano seguinte, quando chegou o décimo sexto dia do primeiro mês, teve uma ideia que lhe pareceu feliz: lembrou-se de uma coisa na qual todos, naquela região, acreditavam. Quando alguém desejava muito e os deuses permitiam, a pessoa podia fazer uma permuta: trocar a sua própria vida pela de uma planta, de um animal ou mesmo de um inseto!
Então, o velho samurai saiu para o jardim e, ajoelhado junto à cerejeira seca e morta, falou com ela, suplicando:
— Por favor, minha cerejeira amada. Eu imploro. Tem pena de mim e atende ao meu humilde pedido: floresce só mais uma vez, para que eu possa morrer em teu lugar!
Depois da súplica, voltou para casa e lá pegou os seus mais alvos lençóis e seus mais ricos tapetes, que estendeu ao pé da árvore seca. Solenemente, sentou-se no tapete e, sem hesitar, fez o haraquiri, rasgando o próprio ventre com a sua espada, conforme a tradição dos samurais. E morreu feliz, com um sorriso nos lábios.
No mesmo instante, o espírito do velho saiu de seu corpo e entrou na árvore seca. A cerejeira morta reviveu. Fresca e viçosa como antes, cobriu-se de flores lindas e perfumadas.
Desde então, com a neve ainda atapetando o chão, a antiquíssima cerejeira continua florescendo no décimo sexto dia do primeiro mês de cada novo ano lunar, vestindo-se de flores e enchendo o jardim de perfume beleza.

E, de todas as partes, dos povoados mais distantes, vem gente nesse dia para ver a cerejeira florir milagrosamente — e fazer toda sorte de pedidos ao espírito do velho samurai que nela se abriga. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Exercícios



1. “As palavras pertencem ao sistema da língua, mas, quando enunciadas, ganham sentidos, produzem discursos: é a língua viva.”
Aproveitando essas palavras, leia o trecho a seguir de um conto maravilhoso; reflita sobre o papel das palavras e expressões destacadas; em seguida, copie cada uma delas no espaço adequado, de acordo com as informações dadas.

                                                   As aventuras de Simbad, o marujo

Em Bagdá vivia um carregador muito pobre chamado Hindbad. Certo dia, fez uma entrega pesada e teve de ir até a outra cidade. Ele foi e, quando chegou lá, viu um palácio lindo, ficou encantado e viu um homem que protegia o belo palácio, e o mesmo falou que o palácio admirado pelo Hindbad era do famoso navegante dos percorreu todos os mares iluminados pelo sol. Nisso, perguntou se ele conhecia Simbad. [ ... ]

( _____________________________ ) são termos importantes para o leitor entender o contexto e os lugares a que a história se refere.

( _____________________________ ) marca um tempo indefinido.

( _____________________________ ) marca um tempo definido: momento no qual Hindbad chega a outra cidade.

( _____________________________ ) indica um tempo preciso: o momento em que o homem resolve perguntar a Hindbad se ele conhecia Simbad.


2. Releia o seguinte trecho:

“Era uma vez um corvo muito bobo e convencido que voou para bem longe e foi parar no mar.”

Retire do trecho duas palavras que tenham um valor adjetivo, marcando um julgamento do narrador.



3. Considerando o que você já estudou sobre texto e contexto, analise a seguinte situação:

Um casal sai para jantar em um bom restaurante. Minutos depois que a comida é servida, a mulher vê uma mosca morta no bife. Chama imediatamente o garçom: “Garçom, tem uma mosca no meu bife.” O garçom retira a mosca, pede desculpas e se afasta displicentemente em direção à cozinha.

Observando o contexto em que foi produzida, qual foi a intencionalidade da mensagem e o que há de errado na atitude do garçom?



4. Leia.

previsão do tempo – poema – horóscopo – notícia – bula de remédio – bilhete – bate-papo – tirinhas – anúncio publicitário – placa de trânsito – conversa – receita culinária – etiqueta de roupa – relatório – cheque

O quadro acima contém os nomes de diversos gêneros textuais.
Destaque no próprio quadro aqueles que são mais adequados para as seguintes situações:


>Dar instruções de lavagem e secagem.
>Orientar motoristas.
>Saber dos acontecimentos recentes da cidade, país ou mundo.

5. Muitos gêneros textuais costumam unir linguagem verbal e não verbal para melhor interagir com o leitor. Considerando os gêneros textuais receita culinária, previsão do tempo e tirinha, quais deles podem dispensar o uso de linguagem não verbal sem nenhum prejuízo do conteúdo?  Justifique sua resposta.

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